Caminhar
Terminado o expediente, teve aquela que seria a ideia mais maluca e sensata que já lhe ocorrera em muito tempo: voltaria a pé para casa. Simplesmente não lhe ocorreu nenhuma boa razão para não fazê-lo, aquele bloqueio mental temporário que não nos deixa ver o perigo e sim as possibilidades, muito comum em todos os que estão para realizar grandes atos heróicos e merdas monumentais.
Vestiu o paletó, pegou a valise executiva, meteu a chave do carro no bolso e saiu. A primeira coisa da qual deu-se conta era de que nunca havia utilizado a saída comum do prédio antes, nem sabia onde ficava. Por anos a fio tinha usado a escura entrada da garagem, que era mais próxima e mais prática. Surpreendeu-se a encontrar um hall bem iluminado, com um vigia que dava boa noite e até alguma decoração, incluindo plantas vivas. O lado de fora era mais familiar, a fachada alta de concreto e vidro em meio aos sons e cheiros da metrópole em fim de tarde, mas tudo estava diferente hoje. Em evidência. Tomou seu rumo automaticamente, meio que guiado pelo subconsciente enquanto seus sentidos formigavam com centenas de informações nostálgicas que voltavam a aflorar agora: quanta gente há no mundo, e como elas são diferentes. Era capaz de jurar que nenhuma delas havia existido até ontem. Motoqueiros zunindo habilidade, ambulantes, jovens despreocupados, mulheres de braços cruzados em pontos de ônibus, moradores de rua dividindo espaço com gatos pardos. Uma buzina próxima lhe chamou a atenção, e ele voltou para a calçada.
Começava já a anoitecer, mas ele não sentia o frio que pendia sobre a cidade. Arrancou o paletó e jogou-o sobre uma lixeira lotada, sem se importar que as chaves do carro (já abandonado no estacionamento da empresa há tanto tempo que nem parecia mais seu) estivessem lá. Afrouxou a gravata e desabotoou os primeiros botões da camisa, como se estivesse em casa. Esqueceu a valise em algum meio-fio por aí. Deu-se conta de que alguma coisa se movia irritantemente em seu cinto: sua esposa no celular, provavelmente pronta para ter justificativas do atraso. Deu o aparelho a um rapaz que passava próximo, dizendo-lhe "é pra você".
Chegara então a uma construção antiga e abandonada, que provavelmente fora um teatro ou um clube de alta classe em tempos remotos, apoiada em colunas romanas e ornada de entalhes e esculturas que se tornaram grotescos blocos de pedra erosados pela fúria urbana. Sentado nos degraus da entrada, olhando ao redor, ele pôde identificar em cada centímetro da paisagem o mesmo desgaste e decadência, desde o chão demasiado gasto até o horizonte onde a nuvem de poluição se acumulava, passando pela ruína de concreto e pela sua própria. No mundo todo as coisas ficavam mais velhas e mais feias a cada segundo, mas pensar nisso não o deixava triste ou desesperado como imaginou que seria o óbvio, mas sim relaxado. Era tudo muito natural.
Levantou-se, e rumou para casa. Quando saíra do trabalho há algumas horas atrás para perambular por aí, ele não fazia ideia do que estaria procurando... Mas agora, já encontrara.
Vestiu o paletó, pegou a valise executiva, meteu a chave do carro no bolso e saiu. A primeira coisa da qual deu-se conta era de que nunca havia utilizado a saída comum do prédio antes, nem sabia onde ficava. Por anos a fio tinha usado a escura entrada da garagem, que era mais próxima e mais prática. Surpreendeu-se a encontrar um hall bem iluminado, com um vigia que dava boa noite e até alguma decoração, incluindo plantas vivas. O lado de fora era mais familiar, a fachada alta de concreto e vidro em meio aos sons e cheiros da metrópole em fim de tarde, mas tudo estava diferente hoje. Em evidência. Tomou seu rumo automaticamente, meio que guiado pelo subconsciente enquanto seus sentidos formigavam com centenas de informações nostálgicas que voltavam a aflorar agora: quanta gente há no mundo, e como elas são diferentes. Era capaz de jurar que nenhuma delas havia existido até ontem. Motoqueiros zunindo habilidade, ambulantes, jovens despreocupados, mulheres de braços cruzados em pontos de ônibus, moradores de rua dividindo espaço com gatos pardos. Uma buzina próxima lhe chamou a atenção, e ele voltou para a calçada.
Começava já a anoitecer, mas ele não sentia o frio que pendia sobre a cidade. Arrancou o paletó e jogou-o sobre uma lixeira lotada, sem se importar que as chaves do carro (já abandonado no estacionamento da empresa há tanto tempo que nem parecia mais seu) estivessem lá. Afrouxou a gravata e desabotoou os primeiros botões da camisa, como se estivesse em casa. Esqueceu a valise em algum meio-fio por aí. Deu-se conta de que alguma coisa se movia irritantemente em seu cinto: sua esposa no celular, provavelmente pronta para ter justificativas do atraso. Deu o aparelho a um rapaz que passava próximo, dizendo-lhe "é pra você".
Chegara então a uma construção antiga e abandonada, que provavelmente fora um teatro ou um clube de alta classe em tempos remotos, apoiada em colunas romanas e ornada de entalhes e esculturas que se tornaram grotescos blocos de pedra erosados pela fúria urbana. Sentado nos degraus da entrada, olhando ao redor, ele pôde identificar em cada centímetro da paisagem o mesmo desgaste e decadência, desde o chão demasiado gasto até o horizonte onde a nuvem de poluição se acumulava, passando pela ruína de concreto e pela sua própria. No mundo todo as coisas ficavam mais velhas e mais feias a cada segundo, mas pensar nisso não o deixava triste ou desesperado como imaginou que seria o óbvio, mas sim relaxado. Era tudo muito natural.
Levantou-se, e rumou para casa. Quando saíra do trabalho há algumas horas atrás para perambular por aí, ele não fazia ideia do que estaria procurando... Mas agora, já encontrara.

6 opiniões:
Viver anos seguindo regras e padrões deve despertar curiosidade e tentações a abandoná-los por certo tempo, suspeito... mas projetar tal vontade para dentro da realidade compartilhada em forma de comportamentos, suspeito, ainda, que seja improvável para os que já se acomodaram com todas as etiquetas.
É bom tomarmos outros caminhos quando a vida caí na rotina. .-.
Digno!
Ele se descobriu vivo e viu todas as coisas vivas e então resolveu viver, coisa que não fazia há muito.
E é natural viver, como é natural morrer.
Beijo, Felipe ♥.
Nossa!
Todos nós precisamos fazer um pouco disso tbm...
Deixar a rotina louca e de plástico pra sentir a ar de verdade entrando nos pulmões... sentir a vida de verdade passando bem ao lado.
Muito bom o seu texto, como sempre ;D
adoro essas pequenas coragens, essas mudanças de rumo, essas descobertas...
isso prá mim é viver...
lindo !
beijos
É como eu costumo dizer: a vida está explodindo lá fora. E agora está explodindo também dentro dele.
beijos
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