Na fila
Diz a lei de Murphy que quanto maior nosso atraso, maior a fila que teremos de enfrentar para chegar ao nosso destino. Assim o é.
O rapaz só tinha mais vinte minutos antes que loja fechasse, e de longe avistou a fila de mais de dez pessoas para o caixa eletrônico, parada obrigatória antes de qualquer compra em um estabelecimento da “antiga era”, isto é, que não aceitasse cartão de crédito. A notícia boa era que à sua frente estava uma moça muito apresentável, do modelo denominado nas rodas de bar como “pitéuzinho”.
- Oi! - puxou conversa com um sorriso, ao chegar ao fim da fila. A moça olhou por cima do ombro, ressabiada:
- Oi. - respondeu num tom educado, que significava “não quero conversa, cuide da sua vida” e voltou a virar-se para frente, agarrando a bolsa com mais firmeza.
Como bom macho que era, o rapaz ignorou todos os óbvios sinais e continuou, completamente esquecido de que estava sem tempo:
- Que coisa chata, isso de fila. Dá a impressão de que vamos ficar aqui pra sempre, não é?
A moça trocou o peso de perna e respondeu, virando-se levemente:
- Filas fazem parte da vida. E pode ficar tranquilo, não vamos ficar aqui tanto tempo.
- Ah, mas ficaríamos bem melhor sem elas, com certeza - continuou ele.
- Não tenho tanta certeza. - disse a moça, pela primeira vez olhando para ele - A gente tem mania de correr com a vida, querer tudo imediatamente, mas o mundo não é assim. Às vezes a gente precisa saber exercitar a paciência e o respeito ao direito dos outros, e as filas servem pra isso.
- Ah, mas existem maneiras melhores de se fazer isso. E além do mais, seria melhor exercitar essas coisas quando a gente desejasse, e não quando nos fosse imposto, como é o caso. - disse o rapaz, feliz por ter recebido tamanha atenção.
- Não, eu discordo. Virtudes assim a gente demonstra quando é necessário, e não quando deseja. É muito fácil ter paciência quando ela não é necessária. No entanto, se a gente souber aproveitar a oportunidade que as filas, por exemplo, nos dão para pensar, você acaba descobrindo que esse tempo “perdido” foi na verdade muito útil para descobrir coisas novas. - filosofou ela.
- Como, por exemplo, a oportunidade de um cara como eu descobrir o telefone de uma garota como você? - arrematou o rapaz, com um sorrisinho sem vergonha.
Ela riu. De fato, ela quase gargalhou, e isso o deixou um tanto sem graça, já que muita gente se virou para olhar.
- Quem sabe? - ela disse, enfim - Quer saber: por que você não me dá o seu telefone?
O rapaz, entusiasmado, disse logo o número que ela anotou na palma da mão com caneta azul.
- Acho que você tinha razão. Até gosto de filas agora. - disse - Então, quando você me liga?
- Em três meses, acho. - respondeu ela.
- Três meses? Como assim, porque não pode ser hoje ou amanhã? - perguntou ele, confuso.
- Bom, você sabe... Tem alguns outros caras antes de você, na minha fila. Mas agora que você entende a virtude da paciência, esperar não vai ser problema, certo?
Ela riu, ele ficou com cara de otário, e nós ganhamos uma ótima piada.
Texto mais bem humorado hoje, a pedido do meu caro Vicente. Mas que fique claro que o grande intento aqui era fazer pensar; o riso é um mero subproduto. Obrigado a todos vocês que me lêem! abraços.
O rapaz só tinha mais vinte minutos antes que loja fechasse, e de longe avistou a fila de mais de dez pessoas para o caixa eletrônico, parada obrigatória antes de qualquer compra em um estabelecimento da “antiga era”, isto é, que não aceitasse cartão de crédito. A notícia boa era que à sua frente estava uma moça muito apresentável, do modelo denominado nas rodas de bar como “pitéuzinho”.
- Oi! - puxou conversa com um sorriso, ao chegar ao fim da fila. A moça olhou por cima do ombro, ressabiada:
- Oi. - respondeu num tom educado, que significava “não quero conversa, cuide da sua vida” e voltou a virar-se para frente, agarrando a bolsa com mais firmeza.
Como bom macho que era, o rapaz ignorou todos os óbvios sinais e continuou, completamente esquecido de que estava sem tempo:
- Que coisa chata, isso de fila. Dá a impressão de que vamos ficar aqui pra sempre, não é?
A moça trocou o peso de perna e respondeu, virando-se levemente:
- Filas fazem parte da vida. E pode ficar tranquilo, não vamos ficar aqui tanto tempo.
- Ah, mas ficaríamos bem melhor sem elas, com certeza - continuou ele.
- Não tenho tanta certeza. - disse a moça, pela primeira vez olhando para ele - A gente tem mania de correr com a vida, querer tudo imediatamente, mas o mundo não é assim. Às vezes a gente precisa saber exercitar a paciência e o respeito ao direito dos outros, e as filas servem pra isso.
- Ah, mas existem maneiras melhores de se fazer isso. E além do mais, seria melhor exercitar essas coisas quando a gente desejasse, e não quando nos fosse imposto, como é o caso. - disse o rapaz, feliz por ter recebido tamanha atenção.
- Não, eu discordo. Virtudes assim a gente demonstra quando é necessário, e não quando deseja. É muito fácil ter paciência quando ela não é necessária. No entanto, se a gente souber aproveitar a oportunidade que as filas, por exemplo, nos dão para pensar, você acaba descobrindo que esse tempo “perdido” foi na verdade muito útil para descobrir coisas novas. - filosofou ela.
- Como, por exemplo, a oportunidade de um cara como eu descobrir o telefone de uma garota como você? - arrematou o rapaz, com um sorrisinho sem vergonha.
Ela riu. De fato, ela quase gargalhou, e isso o deixou um tanto sem graça, já que muita gente se virou para olhar.
- Quem sabe? - ela disse, enfim - Quer saber: por que você não me dá o seu telefone?
O rapaz, entusiasmado, disse logo o número que ela anotou na palma da mão com caneta azul.
- Acho que você tinha razão. Até gosto de filas agora. - disse - Então, quando você me liga?
- Em três meses, acho. - respondeu ela.
- Três meses? Como assim, porque não pode ser hoje ou amanhã? - perguntou ele, confuso.
- Bom, você sabe... Tem alguns outros caras antes de você, na minha fila. Mas agora que você entende a virtude da paciência, esperar não vai ser problema, certo?
Ela riu, ele ficou com cara de otário, e nós ganhamos uma ótima piada.
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Texto mais bem humorado hoje, a pedido do meu caro Vicente. Mas que fique claro que o grande intento aqui era fazer pensar; o riso é um mero subproduto. Obrigado a todos vocês que me lêem! abraços.

8 opiniões:
E paciência é uma das coisas que me falta .-.
eu sou tal como esse cara, odeio filas, nada que leve ao ponto furá-las, tentar passar a frente de alguma maneira, reuno toda a minha paciência e espero a minha vez... isso me lembrou algumas das coisas que não suporto quando estou em filas, o espertinho que sempre tanta passar a frente dos demais, as pessoas cegas ou burras que não sabem que as linhas amarelas não chão são demarcar area que a fila deve oculpar e então a fila se torna qualquer coisa menos indiana, impossibilitando das pessoas que não estão na fila andar pela aquela area, sério isso me irrita bastante e a pessoa surda na ponta da fila que nunca ouve a palavra "PROXIMO"... filas me tiram do sério, e sim, é um bom exercicio pra paciência.
ótimo texto Lipe ^^
huahauahuahauaha
xD
rsrs
hauahauhaua
xD
que comédia... rsrs
muito boa a história...
hum... não gosto de filas também. Mas... são úteis nessa cultura.
Realmente é fácil ter paciência quando não se precisa. Eu ando muito acelerada e essa virtude é algo que tem me faltado. Gostei muito do desfecho do seu texto. Gosto também do fato de que você tem atualizado sempre :)
beijos
Poderia começar comentando que Lei de Murphy só funciona em quem o crê. Seguir falando sobre como é curiosa essa coisa de conhecer pessoas ao acaso, que acabam se revelando tão singulares. Sem esquecer de mencionar essa reflexão tão bacana no texto, de que só mostramos virtudes quando forçados, bem que um amigo meu dizia que é sob pressão que se conhece o homem.
É possível até mesmo captar essa essência tão relativa da nossa percepção sobre o tempo, que às vezes dominamos, e que às vezes nos domina.
Ou até mesmo relevar o final bem arrematado e divertidíssimo no texto, que ainda por cima joga uma lição de moral.
Ah, sim! Também me lembro daquele velho ditado "Paciência é uma virtude..."
Ao invés disso, quero parabenizá-lo por provocar tantas reflexões num só texto, que desliza aos olhos de forma interessante e bem humorada.
A reflexão se torna muito mais gostosa acompanhada de um riso.
AHUHAUAHUHAUHA
Genial, Felipe. Muito bom mesmo!
Ri horrores e refleti bastante também.
Uma conversa interessantíssima pra uma fila. Aliás, é meio louco quando conversas filosóficas acontecem nos lugares mais improváveis possíveis.
Um abraço. ;)
huahuaha...
Muito bom!
Não só a piada mas o contexto de fila que a menina da história falou.
Temos que mostrar as nossas qualidades quando estas são impostas, porque ser bom ou paciente quando a gente quer é muito fácil ;)
haha, muito bom!
Eu gosto de filas tanto quanto gosto de semáforos. A gente corre tanto na vida, que é bom quando ela exige que a gente pare. É quando a gente pode olhar ao redor e ser visto.
Saudades desses textos *-*
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