Grafitando consolação
Chorava copiosamente. As mãos escondendo o rosto já vermelho, tudo úmido desde as orelhas até o queixo, sentado e curvado sobre si no banco de madeira. O amigo, ao lado, não sabia bem o que fazer pra acabar com aquele sofrimento todo.
- Calma cara, não chora assim que eu até fico envergonhado - disse ele.
O outro não respondeu com palavras, apenas desviou as mãos da frente da face para fuzilá-lo com um olhar homicida antes de voltar aos lamentos. O amigo coçou a cabeça, sentou-se também, fez menção de colocar-lhe a mão no ombro, mas desistiu. Mediu bem as palavras e falou no tom mais tranquilo que pôde modular:
- Não fica assim, irmão. Vai dar tudo certo, você vai ver.
Palavras que aparentemente não surtiram o efeito desejado uma vez que o choro aumentou terrivelmente, agora entrecortado também por soluços e tremores involuntários. Pensou em apenas ficar calado e esperar, mas logo a impaciência o traiu e ele teve de dizer alguma coisa:
- Cara, isso vai passar. Tudo passa. - foi o que disse, e logo se arrependeu.
O outro se levantou irritado, e começou a gargalhar enquanto chorava. A expressão em seu rosto era de um homem ensandecido, do tipo que nos aprisiona entre o medo e a pena só de olhar.
- Não me venha com clichês, caralho! - desdenhou - É lógico que eu sei que isso passa, que tudo passa, que a porra da uva passa. - mas a piada não era pra ser engraçada, era uma ironia das pesadas - E é esse o problema. Por que merda as coisas têm que mudar? Eu sei que daqui a pouco vou estar melhor, e também sei que depois disso vou estar assim de novo, talvez ainda pior da próxima vez, e isso é uma merda!
- Que é que eu posso fazer pra ajudar? - perguntou o outro.
- Pode calar a merda de boca.
- Você fala comigo como se eu fosse culpado! - indignou-se.
- E não é? - respondeu o outro, abrindo os braços - E quem não é? Todo mundo é culpado. A vida não é uma droga de um quadro renascentista que a gente pode dizer quem pintou, ela é grafite cara! Uma porra de um grafite onde todo mundo mete tinta um por cima do outro!
O outro ficou em silêncio por algum tempo, triste com a reação tão explosiva do amigo. Baixou os olhos, e murmurou amargamente:
- E de quem é o muro?
O amigo gradativamente cessou a tremedeira, e agora não chorava mais. Seu acesso de raiva tinha interrompido o pranto, e a pergunta que o outro havia deixado pairava no ar, impedindo-o de dizer ou fazer mais nada, a menos que a respondesse. Não podia fazê-lo, a resposta era humilhante demais para ele. Entendendo o seu dilema, e o outro continuou:
- Reaja. Você vai mesmo deixar que escrevam o que quiserem no seu muro? Claro que você não pode impedir que os outros sejam filhas da puta com você, e com certeza essa não é a última vez que vão ser. Mas cara, se você vai ficar se importando com isso... era melhor ter erguido uma cerca.
O amigo riu.
- E de arame. - completou.
- Tá bom... - esfregou os olhos, secando as lágrimas que ainda estavam por ali - Valeu pela mão de tinta, cara.
- De nada. Isso vai te custar uma cerveja, aliás.
Precisei postar hoje, e precisei postar esse texto, não é à toa. Não ando com vontade de escrever, nenhuma ideia parece mais valer a pena e nada do que eu tenho a dizer interessa ou sequer é novidade, mas esse texto tinha que ser posto à luz, e tinha que ser hoje. Porque o meu muro está em frangalhos. Desculpem se não passarei nos blogs de vocês, ou se eu sumir por mais alguns milênios, mas é que essa minha mágoa é contagiosa e não quero nenhum amigo meu sofrendo comigo. Quando meu grafite estiver refeito, aí sim nos veremos de novo. Abraços a todos.
- Calma cara, não chora assim que eu até fico envergonhado - disse ele.
O outro não respondeu com palavras, apenas desviou as mãos da frente da face para fuzilá-lo com um olhar homicida antes de voltar aos lamentos. O amigo coçou a cabeça, sentou-se também, fez menção de colocar-lhe a mão no ombro, mas desistiu. Mediu bem as palavras e falou no tom mais tranquilo que pôde modular:
- Não fica assim, irmão. Vai dar tudo certo, você vai ver.
Palavras que aparentemente não surtiram o efeito desejado uma vez que o choro aumentou terrivelmente, agora entrecortado também por soluços e tremores involuntários. Pensou em apenas ficar calado e esperar, mas logo a impaciência o traiu e ele teve de dizer alguma coisa:
- Cara, isso vai passar. Tudo passa. - foi o que disse, e logo se arrependeu.
O outro se levantou irritado, e começou a gargalhar enquanto chorava. A expressão em seu rosto era de um homem ensandecido, do tipo que nos aprisiona entre o medo e a pena só de olhar.
- Não me venha com clichês, caralho! - desdenhou - É lógico que eu sei que isso passa, que tudo passa, que a porra da uva passa. - mas a piada não era pra ser engraçada, era uma ironia das pesadas - E é esse o problema. Por que merda as coisas têm que mudar? Eu sei que daqui a pouco vou estar melhor, e também sei que depois disso vou estar assim de novo, talvez ainda pior da próxima vez, e isso é uma merda!
- Que é que eu posso fazer pra ajudar? - perguntou o outro.
- Pode calar a merda de boca.
- Você fala comigo como se eu fosse culpado! - indignou-se.
- E não é? - respondeu o outro, abrindo os braços - E quem não é? Todo mundo é culpado. A vida não é uma droga de um quadro renascentista que a gente pode dizer quem pintou, ela é grafite cara! Uma porra de um grafite onde todo mundo mete tinta um por cima do outro!
O outro ficou em silêncio por algum tempo, triste com a reação tão explosiva do amigo. Baixou os olhos, e murmurou amargamente:
- E de quem é o muro?
O amigo gradativamente cessou a tremedeira, e agora não chorava mais. Seu acesso de raiva tinha interrompido o pranto, e a pergunta que o outro havia deixado pairava no ar, impedindo-o de dizer ou fazer mais nada, a menos que a respondesse. Não podia fazê-lo, a resposta era humilhante demais para ele. Entendendo o seu dilema, e o outro continuou:
- Reaja. Você vai mesmo deixar que escrevam o que quiserem no seu muro? Claro que você não pode impedir que os outros sejam filhas da puta com você, e com certeza essa não é a última vez que vão ser. Mas cara, se você vai ficar se importando com isso... era melhor ter erguido uma cerca.
O amigo riu.
- E de arame. - completou.
- Tá bom... - esfregou os olhos, secando as lágrimas que ainda estavam por ali - Valeu pela mão de tinta, cara.
- De nada. Isso vai te custar uma cerveja, aliás.
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Precisei postar hoje, e precisei postar esse texto, não é à toa. Não ando com vontade de escrever, nenhuma ideia parece mais valer a pena e nada do que eu tenho a dizer interessa ou sequer é novidade, mas esse texto tinha que ser posto à luz, e tinha que ser hoje. Porque o meu muro está em frangalhos. Desculpem se não passarei nos blogs de vocês, ou se eu sumir por mais alguns milênios, mas é que essa minha mágoa é contagiosa e não quero nenhum amigo meu sofrendo comigo. Quando meu grafite estiver refeito, aí sim nos veremos de novo. Abraços a todos.

5 opiniões:
Juro que fiquei tentando saber o motivo de tantas lágrimas...e como o amigo solidário procurando uma maneira de amenizar esse sofrimento todo... Ótimo texto, foi legal ler essa cumplicidade ^^
Espero que volte logo :**
Sou fã de diálogos e, por isso, suspeito no comentário. Mas, a relação amigo-amigo é incrível quando assim, bem contada. Não existem boas histórias, mas sim, bons contadores de histórias. Você é um destes.
Um abraço, meu velho amigo.
Quem foi que mexeu contigo? Me diz, que eu quero dar um RODO nesse ser miserento.
Tu sempre escreves maravilhosamente. Nos leva a refletir, a questionar...
Sou tua fã, Zeller.
Um abraço carinhoso da Ericona.
Eu estava passando por mágoas esses tempos, fiquei longe mais nao parei de escrever, quando escrevo parece que me sinto melhor, mais leve... Vamos cercar nosso muro com arame, assim quando alguem vir nos machucar vai se machucar tambem #domal oapskasok'
E como o H. Machado escreveu:"Não existem boas histórias, mas sim, bons contadores de histórias. Você é um destes."
Beijos Fe
Atoraaaay esse seu amigo!
Porreta, ele! Ou ela...
Mesmo que seja imaginário... ~.o
Ah, cara, sei lá, seu amigo tá certo, o que não significa que a gente escute, né?
Se precisar de uma argamassa, chama aí! ;)
Best wishes 4u!
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