Retórica
Era seu primeiro dia trabalhando na bilheteria do teatro, e o movimento estava fraquíssimo. Ela não podia reclamar, afinal, um emprego era um emprego, e algumas pessoas estariam até mesmo contentes por ter menos o que fazer durante o expediente. Sua companheira do guichê ao lado era uma mulher mais velha, tão tranquila de que ninguém apareceria que se pusera a completar um encarte de palavras cruzadas.
- Por que será que ninguém mais vem ao teatro, não? - disse ela, só pra matar o tempo.
- É claro que é porque a cultura das pessoas mudou. Os brasileiros de hoje não têm mais o ímpeto e a vitalidade que tinham os de vinte anos atrás. - respondeu a mulher, carrancuda.
Aquele mau-humor súbito a perturbou. Nem esperava uma resposta de verdade para sua pergunta, tinha-a feito com o único intuito de puxar assunto. Mesmo assim, tentou ser educada e continuar uma conversação amigável:
- Talvez seja só porque o povo está sem dinheiro.
- Tsc. - fez a mulher com o canto da boca erguido - Sem dinheiro quê nada. Se todo mundo ganha o suficiente pra encher a casa de aparelhos de televisão, então o têm de sobra para vir ao teatro.
- Quem sabe se fizéssemos mais propaganda na tevê então... - começou ela, e foi interrompida pela mulher:
- Você não ouviu o que eu disse? - ela ficou de boca aberta, fazendo uma cômica cara de desdém - Todo mundo sabe que o teatro existe, não é por falta de propaganda ou de dinheiro que ninguém vem aqui. Eles preferem manter suas bundas sentadas nas confortáveis poltronas em seus apartamentos abafados enquanto assistem tevê sozinhos e vestidos só com a roupa de baixo. Esse é um retrato de uma geração, mocinha, uma geração lamentável.
Aquele discurso fora tão pungente que, por um momento, ela não soube o que responder.
- Meu Deus, mas porque tanto ódio? - disse, enfim - As pessoas não são assim. Elas trabalham, dão duro, têm filhos pra sustentar e impostos pra pagar. Você fala como se todos os brasileiros fossem vagabundos!
- Eu nunca disse que são vagabundos. Disse que são acomodados. - respondeu a mulher, na defensiva.
- Não sei qual é a diferença. - disse ela - E acho que a senhora é muito mal-educada. Todo esse sermão só porque eu fiz uma simples pergunta que, aliás, era retórica, você nem precisava ter-se dado ao trabalho de responder.
E então a mulher acomodou-se em sua cadeira, baixou o tom e, carregando cada palavra de ironia, disse:
- Bem mocinha, a diferença é justamente essa: os vagabundos não perguntam, e os acomodados fazem perguntas retóricas. Aqueles que fazem perguntas que não precisam ser respondidas, não querem de verdade saber a resposta. É assim que você e que a maioria dos brasileiros são: acham bonito o problema, mas não se importam com a solução.
Ela estava pronta para retrucar, quando a mulher lhe perguntou:
- Palavra de nove letras para “mudança drástica, rebelião”. Sabe?
- Não! - disse ela, irritada e pega de surpresa.
- Como pensei. - respondeu a mulher, com um sorriso satisfeito.
- Por que será que ninguém mais vem ao teatro, não? - disse ela, só pra matar o tempo.
- É claro que é porque a cultura das pessoas mudou. Os brasileiros de hoje não têm mais o ímpeto e a vitalidade que tinham os de vinte anos atrás. - respondeu a mulher, carrancuda.
Aquele mau-humor súbito a perturbou. Nem esperava uma resposta de verdade para sua pergunta, tinha-a feito com o único intuito de puxar assunto. Mesmo assim, tentou ser educada e continuar uma conversação amigável:
- Talvez seja só porque o povo está sem dinheiro.
- Tsc. - fez a mulher com o canto da boca erguido - Sem dinheiro quê nada. Se todo mundo ganha o suficiente pra encher a casa de aparelhos de televisão, então o têm de sobra para vir ao teatro.
- Quem sabe se fizéssemos mais propaganda na tevê então... - começou ela, e foi interrompida pela mulher:
- Você não ouviu o que eu disse? - ela ficou de boca aberta, fazendo uma cômica cara de desdém - Todo mundo sabe que o teatro existe, não é por falta de propaganda ou de dinheiro que ninguém vem aqui. Eles preferem manter suas bundas sentadas nas confortáveis poltronas em seus apartamentos abafados enquanto assistem tevê sozinhos e vestidos só com a roupa de baixo. Esse é um retrato de uma geração, mocinha, uma geração lamentável.
Aquele discurso fora tão pungente que, por um momento, ela não soube o que responder.
- Meu Deus, mas porque tanto ódio? - disse, enfim - As pessoas não são assim. Elas trabalham, dão duro, têm filhos pra sustentar e impostos pra pagar. Você fala como se todos os brasileiros fossem vagabundos!
- Eu nunca disse que são vagabundos. Disse que são acomodados. - respondeu a mulher, na defensiva.
- Não sei qual é a diferença. - disse ela - E acho que a senhora é muito mal-educada. Todo esse sermão só porque eu fiz uma simples pergunta que, aliás, era retórica, você nem precisava ter-se dado ao trabalho de responder.
E então a mulher acomodou-se em sua cadeira, baixou o tom e, carregando cada palavra de ironia, disse:
- Bem mocinha, a diferença é justamente essa: os vagabundos não perguntam, e os acomodados fazem perguntas retóricas. Aqueles que fazem perguntas que não precisam ser respondidas, não querem de verdade saber a resposta. É assim que você e que a maioria dos brasileiros são: acham bonito o problema, mas não se importam com a solução.
Ela estava pronta para retrucar, quando a mulher lhe perguntou:
- Palavra de nove letras para “mudança drástica, rebelião”. Sabe?
- Não! - disse ela, irritada e pega de surpresa.
- Como pensei. - respondeu a mulher, com um sorriso satisfeito.

6 opiniões:
O final foi ainda mais sensacional! HAHAHA
Cara, e não é que essa mulher, aparentemente mal-humorada [pois, na verdade, de mal-humorada não tem nada, apenas enxerga as coisas como realmente são e não teme dizer o que vê], tem razão?
As pessoas não vão ao teatro porque não querem... [exceto aquelas que não tem sequer o suficiente para se alimentar] Preferem ficar no seu "odinoque", vendo a novela mexicana, ouvindo aquele pagode de dor de corno, fazendo tudo de inútil ao invés de ir a luta e fazer o que realmente deveria fazer.
As pessoas não compram livros porque não querem abrir mão das farras e das cervejas no fim de semana. Aliás, as pessoas não sabem dividir as coisas... Não sabem se programar. Quero dizer, há espaço para farras, cervejas e livros no orçamento de muita gente. Mas o quê? Ler pra quê? Que chato é ler! Negócio de ler é pra gente que não tem o que fazer, gente que tem paciência... Pra virgens!
Tsc, tsc. As pessoas perdem precioso tempo com o inútil pelo simples fato de não querer pensar, não querer agir e ficar sempre no cômodo, no que é seguro, mas que no fim das contas, as deixam no mesmo lugar [o que é óbvio].
P.s: Gostei MESMO desse texto, Felipe. Mesmo. Muito. Muito mesmo. Te admirei mais como escritor, mais um pouco, como se fosse possível admirar mais. Mas enfim... ;)
Gostei, legal o que vc escreveu.
ps.: tbm não sou de ir ao teatro.
Essa é a nova geração, a dos acomodados. A última vez que fui ao teatro foi no ano passado... Acho que também sou uma acomodada '-'
aospakspaospk'
O texto ficou incrível.
Beijos
Hahahahaha... Ri horrores.
Não serei hipócrita, a carapuça serviu.
=D
Que baita texto, hein? Somos todos acomodados, apenas reclamando disso e daquilo, sem fazer nada... Sem palavras, excelente teu texto!
Vim aqui pra agradecer pela tua passagem lá no blog e comentário. "Acho é que a gente vive porque é teimoso demais pra morrer." E eu acho que tu tá certo...
Mas enfim, esse teu texto fez minha vinda aqui ser esquecida, realmente muito bom!
A tecnologia traz muitas vantagens, porém tem tornado as pessoas acomodadas. Temos tudo diante de uma tela, com apenas um click.
As crianças de hoje não sabem mais o que é jogar bola na rua, soltar pipa, pular corda, mas sabem muito bem todas as técnicas do PlayStation.
Os tempos mudaram e eu acho que essa senhora tem razão. Gostei demais do texto. Parabéns!!
beijos
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