sábado, 5 de dezembro de 2009

Os homens afloram diferentes

Dois jardineiros trabalhavam no rico e extenso jardim de uma grande propriedade rural no interior do país, entre fazendas, bosques e rios. Era casa de verão de um endinheirado industrial do papel, construída com muito bom gosto ao estilo das refinadas mansões européias, mas com uma integração à falsificada natureza em seu estado bruto que só é possível nesta nação de terceiro mundo, onde um contraste como o entre os crisântemos sob a janela e os altos pinheiros da orla do bosque artificial pode ser considerado a harmonia sublime.
É nada menos que este clima que incita ao jardineiro mais novo, enquanto rega as delicadas bromélias com um jato de água da mangueira de borracha, a amaldiçoar a sina da sua vida ao seu colega veterano que podava pingos-de-ouro:
- Que diabo de ironia. Esse emprego é deprimente. Tanta altivez e beleza à nossa volta, somente pra que os invejemos.
- Não te entendo - responde-lhe o segundo jardineiro, que tinha muito mais tempo de experiência que o primeiro - Por que haveríamos de invejar tais coisas?
- Oras, mas isso é claro. Não quero ser um jardineiro para toda a vida, como você.
- Por que não?
- Por que os jardineiros são como o pasto, enquanto os senhores são como os pinheiros. São altos e robustos, e de lá de cima vêem muito mais do mundo do que pode ver um pequeno fio de gramado.
- E se você não tiver nascido pra pinheiro? - pergunta o mais velho.
- Então quero tornar-me no mínimo um jacarandá. Se não posso ser grande e ver o mundo com tamanha extensão, então serei majestoso e todos os pinheiros olharão para mim.
- Então isso só prova o quanto você é tolo, pois deseja ser coisas diferentes para conseguir aquilo que hoje já tem.
- Que história é essa? Vai me dizer agora que todas essas grandiosidades estão ao alcance de mero pasto? - indignou-se o jovem jardineiro, continuando a metáfora.
- Sim, claro. Veja bem - explicou-lhe o outro - Por mais altos que sejam os pinheiros, mais fundas são as suas raízes, e, portanto a sua extensa e valiosa vista lhes será finita e monótona até o fim dos tempos, pois o pinheiro está tão enraizado que não pode sair do lugar. Já o pasto, por menorzinho que seja, alastra-se com facilidade e vai muito mais longe do que qualquer grande árvore possa sonhar. É o pasto quem vê mais do mundo, além de vê-lo muito mais de perto.
- Você está distorcendo a realidade. - argumentou o jovem - E não se pode comparar a banalidade do capim à beleza do jacarandá.
- De fato, não se pode fazer os pinheiros preferirem admirar o pasto ao invés do jacarandá. - disse o jardineiro - Mas não acho que tenham muita escolha. Lá do alto deles, para todos os lados que olhem, há sempre a grama, e é impossível não vê-la. Acho mesmo é que nos invejam.
- Tolo. - disse-lhe o jovem, e voltou a esguichar as bromélias.
E foi assim que correu a conversa (talvez não nestas mesmas palavras, que nenhum jardineiro as usa, a não ser em crônicas e livros) entre um velho jardineiro e aquele que futuramente se tornaria um dos maiores contrabandistas de madeira do país.

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Pra compensar o texto ruim de semana passada, resolvi postar um que eu considero bom. E antes que comentem, quero deixar claro: se você tirou desse texto alguma moral ecológica, então você entendeu tudo errado. Mas a sua incompreensão deve ser natural, já que a mensagem está bem nas entrelinhas mesmo, não gosto de colocar a coisa assim na cara do leitor... vocês têm mesmo é que pensar. É, eu sou cruelzinho.

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sábado, 28 de novembro de 2009

Do Mau humor

Se cada amargo desdém vem do âmago de um amor deturpado, quem em atilada clareza há de alancear ao mal humorado? Efeito do dissabor discernido, uma doença em dormência induzida, assim que se infecta não é íntegro difamar o enfermo, que apenas padece e perece. Aparece em cada ranzinza um colorido ácido, corrompido asco que se insurge à preleção de onde surge toda a prole da maligna ira, que como uma amante conosco desperta, sem que antes tenha dormido, a penetra. E é de esperta que se incrusta nos vazios do ser, no doce ermo do vácuo entre as reminiscências entranha a remida ciência de esculpir a cada mau amor em mau humor.

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Ok, este texto merece um P.s., por uma razão muito simples: eu não gosto dele. É raro eu não gostar de um texto e mantê-lo escrito, e mais raro ainda postá-lo, porque de fato soa bem estúpido mostrar para os outros uma coisa da qual nem você gosta. Eu tinha muitas pretenções quando tive a ideia de escrevê-lo, mas o maldito foi-se desenvolvendo por conta própria e frustrou todas elas de modo irrecuperável, e por isso estamos brigados, eu e ele.
Mas, no fim, achei um desperdício da memória virtual do meu pendrive mantê-lo escrito e não divulgar. Levante a mão todo mundo que me acha mão-de-vaca agora o/ . Comuniquem-me caso achem que isso foi uma má ideia, prometo que não faço mais.

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sábado, 21 de novembro de 2009

Aspargo

L'Aspèrge (1880) - Edouard Manet

Há três tipos de objetivos na vida: o medíocre, o suficiente e o grandioso, e as diferenças entre eles não são as que a maioria dos homens imagina. Ter um objetivo medíocre não significa necessariamente contentar-se com pouco, mas sim contentar-se com o que vem. Há multimilionários com objetivos medíocres, ganhadores da loteria ou playboys bon-vivants, e até mesmo homens muito felizes que não esperam absolutamente nada da vida, a não ser o que ela lhes faz o favor de conceder. Aquele velho lugar-comum de que é preciso pensar grande nunca esteve mais ultrapassado.

Ambicionar o suficiente é o que a maioria das pessoas faz: seguir uma meta, como se a vida fosse um livro e o final feliz fosse o fim da história. Esse é o tipo de objetivo mais triste que há, porque traz intrínseca essa noção de finalidade, um teto moralmente intransponível e uma assustadora sensação de luz no fim do túnel. Também é o mais decepcionante, pois eu não conheço ninguém que tenha se sentido realizado após chegar lá, pra não falar da depressão que é nunca chegar. Atingir a linha de chegada é apenas como zerar a conta, estar quites com o que foi proposto, liquidar a fatura. Mas depois disso a gente não tira nenhum lucro, fica faltando o crédito de ter-se chegado mais longe do que o planejado.
Crédito é aquilo que conseguimos quando somos melhores que o suficiente, quando somos grandiosos. Fazer mais do que o necessário, não se contentar com o impossível e ter prazer em nunca se acomodar, deleitar-se com cada avanço e evoluir cada vez mais. O que hoje é uma lição diferencial para o mercado de trabalho não era segredo nenhum para certo gênio impressionista que resolveu pintar um aspargo a mais.

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sábado, 14 de novembro de 2009

Propriedade volúvel

O rapaz entra no ônibus, paga ao cobrador, passa a roleta e derruba várias moedas da carteira no chão. Um clássico. Estimativas apontam que quase um terço dos usuários de transporte coletivo derrubam alguma coisa no chão, geralmente de valor e quase sempre onde não se pode alcançar. Para este texto, no entanto, quase todas as moedas foram recolhidas pelo cidadão em questão e por bons samaritanos em volta, que lhe devolveram seu rico troco. Exceto por um garoto de óculos, que pegou uma moeda de um Real e a colocou no bolso.
- Com licença... - disse o rapaz para o garoto, que já estava se sentando de volta em seu lugar - Acho que você pegou uma moeda minha.
- Desculpe, mas não peguei não - respondeu o garoto, despreocupado.
- Pegou, eu vi. Uma moeda de um Real, que eu derrubei no chão.
- Ah, você quer dizer essa aqui? - e tirou a moeda do bolso, segurando-a entre o polegar e o indicador.
- Isso mesmo, muito obrigado! - mas ao tentar o rapaz reavê-la, o garoto colocou-a de volta no bolso mais uma vez.
- Meu amigo, que brincadeira é essa? Será que podia devolver o meu um Real? - o rapaz começava a perder a paciência, e as pessoas em volta se interessaram pela cena.
- Desculpe, mas não tem como provar que a moeda é sua... - disse o garoto, coçando a orelha.
- Como assim? Você viu, todo mundo viu que caiu da minha carteira!
- Tá, mas isso prova que ela ERA sua. - disse, enfatizando o tempo passado - Hoje em dia as coisas mudam de proprietário muito rápido. A partir do momento em que a moeda estava no chão, qualquer um que pegue já se torna o proprietário de direito. Achado não é roubado.
- Olha aqui menino - começou o rapaz em voz alta, mas percebeu os olhares dos passageiros à sua volta e diminuiu o tom - Eu preciso desse dinheiro pra passagem de volta, ok? Por favor, devolva o que é meu.
- Só se você provar que é seu mesmo. Você tem aí algum documento firmado em cartório que comprove a legitimidade da sua posse? Tem testemunhas de que você mesmo fabricou essa moeda, ou detém os direitos de uso exclusivo? Sabe de alguma lei que te assegure a posse de todo ou qualquer objeto que você venha por ventura a deixar negligentemente acessível a terceiros?
- Moleque, quantos anos você tem? - o rapaz não sabia se ficava fulo, ou achava graça.
- Ah, é que meu pai é advogado. - respondeu o menino, fazendo algumas pessoas no assento de trás abafarem uma risada.
- Vamos colocar desse jeito então: - disse o rapaz - Você me devolve meu dinheiro, ou eu te arrebento a cara.
- É, tá aí um bom argumento. - respondeu o garoto, e devolveu-lhe a moeda.

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sábado, 7 de novembro de 2009

Sem texto hoje!

É, esse é um post só pra dizer que hoje não tem post. É uma história comprida, com uma complicação atrás da outra, e só o que interessa é que no final eu não consigo acessar nenhum dos meus arquivos de texto, e tô com uma preguiça lascada de produzir alguma coisa nova nesse instante pra postar aqui. Então desculpem, hoje nem deu ^^/
E também já venho publicamente pedir desculpas prévias, porque também não vou comentar no blog de ninguém essa semana. Mas semana que vem, operações de volta ao normal (eu acho).
Sabe o que vale a pena comentar hoje? É que tiraram todos os radares das avenidas movimentadas aqui em Bauru, e pelo jeito já faz tempo, mas eu só percebi hoje ;P A gente se acostuma tanto com coisas como frear sempre nos mesmos lugares, que quando não têm mais necessidade de o fazer, a gente faz mesmo assim. O homem é uma criatura estranha....
Bom, essa foi minha tentativa sem-vergonha de preencher o vazio de hoje. Ridículo, deveras, mas ao menos minha consciência está mais leve.

Até mais!

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sábado, 31 de outubro de 2009

Da Insônia


A certeza que tenho de que não saberei descansar resigna-me. Não cansa-me gorjear ao longo da noite, e regozijo-me ao largo da onde não dormirei, abarco a vigília como quem abraça as vísceras já desgastadas da vida se a tiver, sentinela de um posto aposentado que agarra-se às próprias voracidades não contempladas. E é fato que o teto fito, faço dos sonhos contos e conto insonháveis carneiros que negros por baixo da cerca escavam, e os cerco e eles escapam, e onde é que eles estavam que agora pouco já os perdi? Deito de lado, da janela deleita-se a lua sobre meu leito, e já tem horas que descrevo do céu os brilhos a descolorirem-se sob a alvorada, olvidam o escuro e avivam o sono. Mas não em mim.

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sábado, 24 de outubro de 2009

Companhia

Le Double Secret (1927) - René Magritte

Nenhum homem é uma ilha. E mesmo que fôssemos, mesmo que nos forcemos para afora dos litorais do plural da sociedade, ainda estamos fadados a ter em nós nossas próprias gaivotas e palmeiras a balançar com o mais leve vento da noite, não nos deixam em paz. Nossos sons e sombras, as vozes em nós e as ideias que nos embarcam e zunem infantilmente em torno da nossa mente durante o sono, tanta coisa exige nossa atenção que é quase impossível concentrarmo-nos em nossa própria e abandonada essência. Porque é tão difícil a um homem estar só?
E se o nosso isolamento é utópico, então não é certo que façamos de uma impossibilidade o cenário ideal para que se descubra nossa verdadeira identidade, porque então que cruel seria, jamais sermos quem na verdade somos. O nosso ser está nos outros. Não procuro na solidão o auto-conhecimento, e sim o descobrimento de algo completamente novo, uma amizade inseparável.
Como seria bom conhecer aquele que me acompanha quando estou só... que nome tem, as memórias que viveu, quais seus sonhos, o que pensa de mim ou o que sabe da vida que eu ainda não sei. O pouco que dele conheço, é apenas uma sombra do demônio que me há por trás dos olhos. É ele que encaro agora no espelho.

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Aqui vêm aqueles incapazes de abdicar da dúvida.
Daqui saem aqueles capazes de abduzir a crítica.
Dos que vão,
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Plágio é crime!

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"Deu-se o momento em que se tornou necessário negar, contestar tudo. Deste momento em diante todos os sonhos se tornaram realidade, ao custo de toda a realidade tornar-se em pesadelo."

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