Os homens afloram diferentes
Dois jardineiros trabalhavam no rico e extenso jardim de uma grande propriedade rural no interior do país, entre fazendas, bosques e rios. Era casa de verão de um endinheirado industrial do papel, construída com muito bom gosto ao estilo das refinadas mansões européias, mas com uma integração à falsificada natureza em seu estado bruto que só é possível nesta nação de terceiro mundo, onde um contraste como o entre os crisântemos sob a janela e os altos pinheiros da orla do bosque artificial pode ser considerado a harmonia sublime.
É nada menos que este clima que incita ao jardineiro mais novo, enquanto rega as delicadas bromélias com um jato de água da mangueira de borracha, a amaldiçoar a sina da sua vida ao seu colega veterano que podava pingos-de-ouro:
- Que diabo de ironia. Esse emprego é deprimente. Tanta altivez e beleza à nossa volta, somente pra que os invejemos.
- Não te entendo - responde-lhe o segundo jardineiro, que tinha muito mais tempo de experiência que o primeiro - Por que haveríamos de invejar tais coisas?
- Oras, mas isso é claro. Não quero ser um jardineiro para toda a vida, como você.
- Por que não?
- Por que os jardineiros são como o pasto, enquanto os senhores são como os pinheiros. São altos e robustos, e de lá de cima vêem muito mais do mundo do que pode ver um pequeno fio de gramado.
- E se você não tiver nascido pra pinheiro? - pergunta o mais velho.
- Então quero tornar-me no mínimo um jacarandá. Se não posso ser grande e ver o mundo com tamanha extensão, então serei majestoso e todos os pinheiros olharão para mim.
- Então isso só prova o quanto você é tolo, pois deseja ser coisas diferentes para conseguir aquilo que hoje já tem.
- Que história é essa? Vai me dizer agora que todas essas grandiosidades estão ao alcance de mero pasto? - indignou-se o jovem jardineiro, continuando a metáfora.
- Sim, claro. Veja bem - explicou-lhe o outro - Por mais altos que sejam os pinheiros, mais fundas são as suas raízes, e, portanto a sua extensa e valiosa vista lhes será finita e monótona até o fim dos tempos, pois o pinheiro está tão enraizado que não pode sair do lugar. Já o pasto, por menorzinho que seja, alastra-se com facilidade e vai muito mais longe do que qualquer grande árvore possa sonhar. É o pasto quem vê mais do mundo, além de vê-lo muito mais de perto.
- Você está distorcendo a realidade. - argumentou o jovem - E não se pode comparar a banalidade do capim à beleza do jacarandá.
- De fato, não se pode fazer os pinheiros preferirem admirar o pasto ao invés do jacarandá. - disse o jardineiro - Mas não acho que tenham muita escolha. Lá do alto deles, para todos os lados que olhem, há sempre a grama, e é impossível não vê-la. Acho mesmo é que nos invejam.
- Tolo. - disse-lhe o jovem, e voltou a esguichar as bromélias.
E foi assim que correu a conversa (talvez não nestas mesmas palavras, que nenhum jardineiro as usa, a não ser em crônicas e livros) entre um velho jardineiro e aquele que futuramente se tornaria um dos maiores contrabandistas de madeira do país.
Pra compensar o texto ruim de semana passada, resolvi postar um que eu considero bom. E antes que comentem, quero deixar claro: se você tirou desse texto alguma moral ecológica, então você entendeu tudo errado. Mas a sua incompreensão deve ser natural, já que a mensagem está bem nas entrelinhas mesmo, não gosto de colocar a coisa assim na cara do leitor... vocês têm mesmo é que pensar. É, eu sou cruelzinho.
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É nada menos que este clima que incita ao jardineiro mais novo, enquanto rega as delicadas bromélias com um jato de água da mangueira de borracha, a amaldiçoar a sina da sua vida ao seu colega veterano que podava pingos-de-ouro:
- Que diabo de ironia. Esse emprego é deprimente. Tanta altivez e beleza à nossa volta, somente pra que os invejemos.
- Não te entendo - responde-lhe o segundo jardineiro, que tinha muito mais tempo de experiência que o primeiro - Por que haveríamos de invejar tais coisas?
- Oras, mas isso é claro. Não quero ser um jardineiro para toda a vida, como você.
- Por que não?
- Por que os jardineiros são como o pasto, enquanto os senhores são como os pinheiros. São altos e robustos, e de lá de cima vêem muito mais do mundo do que pode ver um pequeno fio de gramado.
- E se você não tiver nascido pra pinheiro? - pergunta o mais velho.
- Então quero tornar-me no mínimo um jacarandá. Se não posso ser grande e ver o mundo com tamanha extensão, então serei majestoso e todos os pinheiros olharão para mim.
- Então isso só prova o quanto você é tolo, pois deseja ser coisas diferentes para conseguir aquilo que hoje já tem.
- Que história é essa? Vai me dizer agora que todas essas grandiosidades estão ao alcance de mero pasto? - indignou-se o jovem jardineiro, continuando a metáfora.
- Sim, claro. Veja bem - explicou-lhe o outro - Por mais altos que sejam os pinheiros, mais fundas são as suas raízes, e, portanto a sua extensa e valiosa vista lhes será finita e monótona até o fim dos tempos, pois o pinheiro está tão enraizado que não pode sair do lugar. Já o pasto, por menorzinho que seja, alastra-se com facilidade e vai muito mais longe do que qualquer grande árvore possa sonhar. É o pasto quem vê mais do mundo, além de vê-lo muito mais de perto.
- Você está distorcendo a realidade. - argumentou o jovem - E não se pode comparar a banalidade do capim à beleza do jacarandá.
- De fato, não se pode fazer os pinheiros preferirem admirar o pasto ao invés do jacarandá. - disse o jardineiro - Mas não acho que tenham muita escolha. Lá do alto deles, para todos os lados que olhem, há sempre a grama, e é impossível não vê-la. Acho mesmo é que nos invejam.
- Tolo. - disse-lhe o jovem, e voltou a esguichar as bromélias.
E foi assim que correu a conversa (talvez não nestas mesmas palavras, que nenhum jardineiro as usa, a não ser em crônicas e livros) entre um velho jardineiro e aquele que futuramente se tornaria um dos maiores contrabandistas de madeira do país.
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Pra compensar o texto ruim de semana passada, resolvi postar um que eu considero bom. E antes que comentem, quero deixar claro: se você tirou desse texto alguma moral ecológica, então você entendeu tudo errado. Mas a sua incompreensão deve ser natural, já que a mensagem está bem nas entrelinhas mesmo, não gosto de colocar a coisa assim na cara do leitor... vocês têm mesmo é que pensar. É, eu sou cruelzinho.

